17 de março de 2020 Leticia Cipriani

Recomeço da jornada – Caminho de Santiago

Ter confiança é o primeiro passo para a vitória. E a minha confiança subiu de nível quando descobri a sandália do Willian. Nessa etapa, meus pés ainda não tinham retomado o ritmo do início do Caminho e encontrar as sandálias do meu amigo foi como um recomeço na minha jornada. 

No começo da caminhada estava super empolgado com a peregrinação e isso fez com que eu não desse a devida atenção aos sinais que meu corpo enviava. As bolhas tomaram meu pé, tive febre e quase coloquei a viagem em risco. Nessa etapa, quando encontrei as sandálias do meu amigo num albergue onde me hospedei, senti um recomeço. O conforto que ela proporcionava ao meu corpo deixaram-me leve e novo para seguir o caminho.

Comecei a minha caminhada no mesmo horário. Senti um alívio tão grande na saída de Grañon, caminhando com aquelas sandálias, que naquele momento era difícil alguma coisa me parar. É claro que o pé ainda doía muito, mas só de não ser comprimido pela bota já deixava a situação sob controle.

Meu itinerário de caminhada era até Villafranca de Monte de Oca e sabia que encontraria algumas subidas pela frente e um percurso total de quase 30 quilômetros. 

Saindo de Grañon, com dois graus negativos, segui até Redencilla del Camino, onde cheguei rapidamente: menos de uma hora para andar os cinco quilômetros. Meus pés estavam leves e eu só precisava tomar cuidado com os meus passos e, por isso, mesmo com sandálias, continuava pisando mais forte com o calcanhar. A leveza me distraiu e não percebi que tinha pegado um caminho errado. Só fui perceber quando senti falta das setas amarelas.

O caminho errado

Não sabia se seguia até um vilarejo que estava adiante ou voltava. Preferi seguir para colher uma informação com um morador que apareceu por lá. Era um senhor de aproximadamente 70 anos e características de espanhol da zona rural. Perguntei se o caminho estava errado e ele me disse que sim e que não. Sim, porque a maioria das pessoas seguem o caminho por outra estrada. Não, porque ele ia me indicar um caminho onde antes era o verdadeiro Caminho de Santiago, mas que há algum tempo não era usado. Eu chegaria, da mesma forma, a Viloria de Rioja.

Segui o conselho do senhor e fui em frente. A chuva do dia anterior deixou praticamente intransitável o caminho por onde passei e foi bem complicado seguir adiante com muito barro e de sandália. Não me importei e segui mesmo assim, pois queria aproveitar que a dor na bolha estava controlada.

Entrar em Viloria de la Rioja e retirar o barro das sandálias foi um alívio. Foram aproximadamente quatro quilômetros que andei de Redencilla até Viloria. Depois de Viloria, segui descendo e margeando uma estrada em asfalto até chegar na rodovia que já podia ser vista lá de cima. Nas descidas, eu sentia mais incômodo com as bolhas e, por isso, mesmo com a sandália, eu tomava muito cuidado ao caminhar. 

Cheguei ao cruzamento com a rodovia e segui por um caminho paralelo até Villamayor del Rio, um vilarejo muito pequeno, que atravessei rapidamente, quatro quilômetros após Viloria de Rioja. Nessa hora, eu vi uma situação cômica: dois coreanos caminhando de costas, seguindo no meu sentido, mas andando de costas. Achei bem curioso, mas não me atrevi a perguntar o porquê. 

Uma curiosidade sobre o povoado de Villamayor del Rio: ele é conhecido como “pueblo de las tres mentiras”, porque não é uma vila, nem é a maior e não possui um rio. Coisas que o Caminho nos conta.

A chegada

Depois de todo o percurso até o meu destino Villafranca de Monte de Oca, finalmente cheguei ao albergue e fui encontrar meus amigos, que estavam em um albergue privado, próximo de onde eu estava. Encontrei com eles para a nossa caña habitual. Batemos um papo, assistimos a uma parte de um jogo de futebol e depois voltei para meu albergue.

Para mim, foi um novo começo. O alívio causado pelas sandálias que eram do Willian me trouxe a disposição, que tinha sido afetada com o problema das bolhas. Os problemas não acabaram, mas aceitei a minha nova condição e segui adiante.

Diante dos obstáculos do caminho, é essencial ser resiliente e acreditar que você pode alcançar aquilo que deseja. Esteja disposto a passar por momentos desconfortáveis, eles farão todas as belezas do caminho valer a pena e o recomeço da caminhada fará você trilhar com outros olhos, olhos esses que, antes do recomeço, só reparavam os problemas… Recomece todos os dias!

Foto em destaque: Villafranca de Monte de Oca